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Entrevista: Fetiche Design para Casa

Casa de Valentina - Fetiche design para Casa - fachadaAdorei! Sim, é isso mesmo, já gostava muito do trabalho da Fetiche Design para Casa, mas agora, depois de trocarmos figurinhas posso dizer de boca cheia de sou fanzoca da dupla curitibana.

Vai com fé que a leitura vale a pena!

CV: No 2º ano da criação da Fetiche Design para Casa vcs foram finalistas do IF Awards. Valeu como uma chancela para a dupla de que vcs estavam mesmo no caminho certo?

FDC: Com certeza. Depositamos nessa primeira coleção todos os nossos ideais em relação à marca. A Coleção Primo Volo foi a primeira experiência com o nosso mercado, nossa primeira produção, nosso primeiro investimento. Nós havíamos criado bastante para outras marcas, mas agora estávamos lançando o nosso produto com a liberdade que buscávamos. Ser finalista de um dos maiores prêmios de design do mundo com nosso primeiro lançamento foi um reconhecimento e sem dúvida foi muito empolgante.

Casa de Valentina - Fetiche Design para Casa (4)

Casa de Valentina - Fetiche design para Casa - cadeira

CV: Uma das principais características da Fetiche é a liberdade que tem em trabalhar com diferentes materiais e formas. Mesmo assim, enxergam algumas características sempre presentes nas criações de vcs?

FDC: Se você analisar nossas peças vai perceber que construtivamente e esteticamente elas são absolutamente limpas. Não podemos dizer que são assépticas como um cubo branco, longe de serem minimalista também, no entanto, procuramos imprimir personalidade na mistura de materiais ou até mesmo em um detalhe como as pernas de fora da Cadeira Urbana.

CV: Com o sucesso do design brasileiro no exterior, vcs perceberam um interesse maior das lojas nacionais em valorizar e comercializar a nossa produção?

FDC:Poucos lojistas brasileiros têm uma visão à frente do que sai na mídia, ou seja, pouquíssimos valorizam um design nacional e apostam na peça antes de sair em revistas, blogs e etc. No geral o design escandinavo - ou o design brasileiro com cara de escandinavo - e os clássicos de design estrangeiros são muito valorizados no Brasil, o que dificulta um olhar mais atento sobre produtos inovadores, com desenhos mais vanguardistas e com uma identidade nacional, se é que ela existe.

Casa de Valentina - Fetiche Design para Casa (6)


CV: Mesmo que lentamente, as empresa brasileiras começam a admitir a importância do design e algumas começam até a estruturar seus departamentos de desenho e estilo. Vcs acreditam que a longo prazo essa mudança impacte também na forma como consumimos design hoje em dia?

FDC: É estranho dizer “Eu consumo design”, porque na verdade qualquer produto que foi produzido e está no mercado, de uma forma ou de outra foi projetada, ou seja, tem design. A diferença é se esse design é bom ou ruim. Se esse design oferece uma boa ergonomia, se tem um processo sustentável na produção e se esteticamente se destaca e agrada: sendo assim ele tem um bom design. Se as indústrias brasileiras começam a se importar com o “bom” design, nós teremos cada vez mais no mercado produtos de melhor qualidade, os consumidores ficarão mais exigentes e certamente deixarão de lado aquele produto mal projetado e com preço similar. Um produto com um bom design não precisa ser mais caro, isso pode ser revertido em volume de vendas, porque um bom design vende. Esse é o grande desafio dos industriais, desenvolverem produtos com um bom design sem onerar na ponta o preço final para o consumidor.

Casa de Valentina - Fetiche Design para Casa (2)


CV: Na lógica neural e anárquica da web, onde vcs buscam inspirações?

FDC: Consumimos muita informação de blogs estrangeiros de design como Contemporist, Design Milk , Mocoloco, Designboom, NotCot , Core77, Fubiz, Yatzer, Design You Trust e Casa de Valentina - Fetiche design para Casa - temperosetc. Seguimos uma lista infindável de sites de estúdios estrangeiros de design, para acompanhar o andamento das coleções e o que está saindo de novo no nosso mercado. Somos muito curiosos e isso nos toma bastante tempo e só na web para conseguirmos acompanhar em tempo real isso. Adoramos os blogs de moda de rua, The Sartorialist e Garance Doré, são muito inspiradores em todos os sentidos. Youtube e Twitter nos abastecem de informação sobre a cultura de massa e tendência de consumo. Conferimos também os sites das revistas virtuais de decoração brasileiras e os blogs BemLegaus do nosso conterrâneo MonteJorge, o Allex in Casa e o Casa de Valentina, claro, entre outros.

Dito e feito. Valeu a pena e leitura não é mesmo? Então agora fiquem com um clipe bem bacana feito para o banco R540, o mesmo que fotografei no Museu da Casa Brasileira.

Entrevista: StudioDupla

Casa de Valentina - StudioDupla - mesa coloridaLogo que conheci o StudioDupla fiquei hipnotizada com suas peças e móveis. Além de extremamente criativas são carregadas de um humor inteligente que não é fácil de ser traduzido em objetos.

Então, estou bem contente em publicar no Casa de Valentina uma pocket entrevista com o Tuca Corazza que, junto com o Lúcio Carvalho, são as mentes criativas destas peças incríveis.

CV: Como começou o StudioDupla? Casa de Valentina - StudioDupla - lumin'aria l^ampada

TC: Em 2006 a Conceito Firmacasa (Sônia Diniz) encomendou uma linha de produtos para mim e para o Lúcio Carvalho baseada no surrealismo.

Criamos então algumas estampas que eles utilizaram para fazer: almofadas, estofado de poltronas e cadeiras e alguns objetos , como a Luminária Lâmpada que acabou virando nosso logotipo.  A coleção foi um sucesso e então decidimos montar uma pequena empresa de design de objetos que chamamos de StudioDupla - porque é uma dupla Tuca e Lúcio.

CV: Os objetos e móveis do Studio são bem diferentes dos que encontramos por aí e têm um a linguagem bastante particular. O que os inspira?

TC: Como a primeira coleção que criamos foi inspirada no surrealismo e foi um grande sucesso, identificamos que o mercado de decoração estava carente de objetos inusitados e tudo era muito sério, sem humor. Daí resolvemos criar peças que parecem uma coisa, mas na verdade é outra ou as 2 coisas. Eu explico: temos um revisteiro que é montado sobre uma base de MDF com 4 rodinhas que vira um banquinho, ou uma taça de vinho que vira uma luminária!

Casa de Valentina - StudioDupla - banco revisteiro          Casa de Valentina - StudioDupla - cupula vela

CV: Conte um pouco sobre o processo de pesquisa e criação do Studio.

TC: As viagens são a nossa maior fonte de inspiração, somado aos clássicos livros e revistas de design e claro hoje em dia a WEB.

No ano passado fomos ao Japão. Tudo é design neste país, até o papel que as lojas embrulham os pacotes transpiram design , as ruas , os sinais de trânsito, a própria escrita japonesa é uma obra de design... uma fonte de inspiração!!!

Casa de Valentina - StudioDupla - Espelho gileteCV: É possível escolher uma peça que melhor represente o trabalho de vcs?

TC: achamos nossa luminária lâmpada a cara do StudioDupla , é simples: uma lâmpada , mas envolve materiais muito contemporâneos como a acrílico e o corte a laser, sugere uma "nova idéia" afinal a Lâmpada é quase um sinônimo de uma idéia. A nossa linha TRECOS também adoramos , numa bandeja ou numa fruteira temos pequenas imagens de : gilete, lâmpada, pato de borracha , granada, beija-flor, cifrão $ , etc... é um acúmulo de coisas ...

 

CV: E para quem adora design, quais as dicas de livros/revistas/sites/blogs vcs sugerem?

TC: Olha, a lista é bem extensa... as revistas nacionais lemos todas: Casa Claudia, Casa Vogue, Viver Bem, Casa e Jardim, D´Casa, Casa e Decoração... todas mesmo. 

Livros de design, quanto mais, melhor. Mas adoramos especialmente os da editora Taschen... são maravilhosamente bem feitos.

Existe um site de design que indicamos a todos: www.yatzer.com. É feito por um grego que pinça o melhor do design, arquitetura, moda e decoração do mundo. Vale a pena conferir!

E aqui vão mais algumas peças do StudioDupla (studiodupla.blog.terra.com.br)

    Casa de Valentina - StudioDupla - bandeija cavalete    Casa de Valentina - StudioDupla - Backlight relicário

Casa de Valentina - StudioDupla - Espelho - cadeira cavalo    Casa de Valentina - StudioDupla - mesa tronco

Uma conversa com o Estúdio Glória

Casa de valentina - Estúdio Glória - por um móvel divertidoProvavelmente a maioria aqui já viu alguma peça do Estúdio Glória rondando revistas, sites ou blogs. E como sempre gostei do trabalho alegre e divertido deles me bateu uma certa curiosidade por conhecer um pouco do casal responsável pela loja.

Na prática o Estúdio Glória nasceu ao acaso. Fruto da mania da  designer de interiores Karina Arruda em garimpar móveis antigos.

Na época, ela e o André, seu marido, estavam se mudando de Cotia e viram a necessidade de se desfazer de todas aquelas peças que ocupavam o local. Foi aí que perceberam o potencial do negócio. Amigos, amigos dos amigos, conhecidos e desconhecidos, ficaram interessadíssimos nos móveis e mais que rapidamente o casal repensou a mudança, permaneceu em Cotia e abriram, oficialmente, o Estúdio Glória.

Casa de valentina - Estúdio Glória - buffet florido

CV: As peças de vcs são bem livres e ao mesmo tempo divertidas e inusitadas. Alguma vez imaginaram que esse tipo de móvel faria tanto sucesso?

EG: Nunca imaginamos. As pessoas estão vindo na loja buscando nossas peças mais coloridas. Hoje é mais fácil vendermos um sofá todo em patchwork do que um marrom, por exemplo. É cada vez mais comum um cliente chegar na loja, se encantar com as cores do lugar e além de comprar os móveis ainda contratar a Karina para modificar as cores das paredes e dos móveis da casa dele.

Casa de valentina - Estúdio Glória - buffet verde limão

CV: Optar por continuar em Cotia e montar o Estúdio aí, foi uma decisão ousada para quem pensava em vir para o zum zum zum da cidade. Essa escolha possibilitou que a loja se tornasse quase uma experiência para os visitantes e não somente um lugar convencional. Vc acha que o Estúdio é um reflexo do estilo de vida de vcs?

Casa de valentina - Estúdio Glória - bar vermelho chegueiEG: Sim, tudo aqui é muito pessoal. Os móveis, a comida, a música, o serviço, enfim, queremos realmente criar uma experiência para quem vem na loja. Ficar em Cotia foi uma decisão difícil, mas acreditamos ter sido a escolha certa. Todos são recebidos aqui como se fossem amigos nossos vindo nos visitar.  Aliás, muitos estão virando amigos. Não conheço outro lugar assim em São Paulo. Já viu criança gostar de ir em loja de móveis? Pois aqui com esse gramado, parquinho, cachorro, galinha, piscina, elas não querem ir embora. É normal ouvir das crianças "Mãe, eu quero morar nessa casa!"

CV: Saber pinçar um móvel bacana e reformá-lo completamente requer um olhar apurado. Quais as dicas do Estúdio para quem quer se aventurar comprando um móvel em uma família vende tudo ou em uma feirinha.Casa de valentina - Estúdio Glória - cômoda

EG: Sinceramente não tem muito segredo. Tem que olhar com cuidado o estado geral da peça. Móveis muito estragados acabam tendo um custo muito alto de restauro. Prefira móveis de madeira maciça e deve-se tomar cuidado com cupim, se tiver furinhos e pó dentro das gavetas por exemplo, melhor não comprar. Evite móveis com muita cara de antiguidade, de aparência muito pesada, muito entalhados. Prefira mobiliário dos anos 50 a 70.


CV: Mixar cores, estampas e estilos é uma arte. Existe alguma regrinha que facilite essas combinações?

EG: Difícil explicar. Defina um ponto de partida. Uma cor, ou uma estampa. A partir disso vá juntando outros tecidos que complementem o primeiro. E o principal, não tenha medo de errar.

Casa de valentina - Estúdio Glória - loucura, loucura, loucura!

E aí, ainda está na dúvida sobre como usar os móveis do Estúdio Glória em casa? Então vale dar uma olhada em como a Karina fez isso na sua própria casa:       

Casa de valentina - Estúdio Glória - via Casa e Jardim Casa de valentina - Estúdio Glória - via Casa e Jardim 2 

Essas últimas 2 fotos são da Casa e Jardim.

Entrevista: Ana Braga

Tive o prazer de conhecer o trabalho da Ana Braga na Craft deste ano. Já fiz aqui uma postagem com suas luminárias. Mas agora vai o post completo: peças + poket entrevista.

Há 2 anos a artista inaugurou a Ilustres Iluminados, sua linha de luminárias feitas manualmente com estrutura em cobre, ferro, inox e alumínio trabalhadas com diversos materiais que dão forma às suas criações. Com tiragem de no máximo 5 unidades, as peças são praticamente exclusivas pois cada uma apresenta traços e contornos próprios e desenha na parede sombras e gestos diferentes.

Aqui vai o contato da artista e uma pequena amostra de seu trabalho:
anabraga2008@gmail.com
Pendente de 3 focosLinha
CV: Ana, como nasceu o Ilustres Iluminados?
AB: Eu queria uma luminária nova e na época estava sem dinheiro. Como na minha casa tinha muita coisa que daria para fazer uma ... fiz. E achei bom fazer...e sigo acreditando em fazer ... é bom.
Bordado Abajour
CV: Quando nos conhecemos lembro que você comentou que optou por montar seu ateliê em casa. Essa escolha influencia seu processo de criação e produção, uma vez que que vive cercada pelas suas peças ?
AB: Sem dúvida me ajuda bastante a ficar mais concentrada com desenvolvimentos dos projetos no dia a dia. Tanto a idéia quanto a execução vão caminhando juntas. Mas também me divide com o aspirador de pó ligado e o barulho auto da geladeira rsssssss.
CascataHomem lata
CV: Percebo no seu trabalho uma liberdade enorme no uso dos materiais e nas formas. Como acontece essa criação, você pensa antes na forma que pretende dar as peças e depois busca o material adequado ou elas surgem no próprio manuseio da matéria prima?
AB: Acho que é um pouco de tudo. O material fica muito em exposição para ser pensado e manuseado, e eu, passando o olho a todo momento... uma hora alguns se encontram numa idéia e vão virando projetos. Mas também tem a questão pratica junto, fazer as estruturas em ferro...o Anderson, que é meu parceiro nas luminárias e serralheiro, é quem faz a peça em ferro... e tudo junto para realizar a idéia.
RendadoRolinhos recicláveis
TeiaXadrez
E para minha grata surpresa, qual é a novidade que a Ana me mostra:
Frontal
Esta prateleira incrível desenhada, executada e produzida por ela com ferro escovado.
Estante cópia
A estante e a luminária, que conversam e dão todo charme para a sala.
Lustreb de dia
Um espetáculo a parte!
Lindo - de noite
E em outro ambiente da casa, uma parede especial, toda desenhada por sombras e contornos.
Sombras na parede
Desenho
Adorei!

Entrevista com Julia Krantz

A primeira vez em que vi a poltrona Suave fiquei encantada com a leveza da peça. Foi aí que conheci o trabalho da artista, que, como poucas, consegue trabalhar com a madeira a seu favor aproveitando suas formas orgânicas para muito além da utilidade diária.

Estou bem contente em postar esta entrevista. Espero que aproveitem tb, o trabalho dela é incrível.

suave

CV: Como foi para uma arquiteta começar a trabalhar com movelaria? Além da sua formação na FAU o que mais contribuiu para seu trabalho atual?

JK: Minha infância foi carregada de atividades criativas e artísticas, graças a meus pais, à liberdade e incentivo que nos davam dentro desta área. Na FAU a disciplina de desenho industrial era ministrada ao longo dos 5 anos, e especificamente no 3º ano tínhamos que elaborar e produzir em escala 1:1 uma cadeira para restaurantes ou bares, com o suporte da marcenaria existente na faculdade. A partir desta experiência decidi que meu caminho seria o trabalho com madeira para a criação de mobiliário. Fiz paralelamente cursos de maquetes e de marcenaria que me ajudaram a entender melhor a área, e depois de me formar me organizei para montar minha própria marcenaria, que tenho desde 2000. baum

CV: Todo seu trabalho envolve uma escolha minuciosa da matéria prima e zela pelo manejo sustentável. Você percebe que o mercado já valoriza essas escolhas ou acaba sendo uma prática particular do artista?

JK: As pessoas estão cada vez mais conscientes da necessidade de se cuidar com mais atenção das questões ambientais em geral, e hoje fica mais fácil fazê-las entenderem da importância do manejo sustentável para a produção em madeira. Esse trabalho vem melhorando e ainda é difícil o acesso às madeiras ecologicamente corretas, mas tenho certeza de que vale a pena me manter firme neste propósito, de trabalhar com consciência e respeito pelas florestas, com um produto que é renovável e que pode existir para sempre se soubermos fazer a nossa parte.

CV: Em uma entrevista o Morito Ebine comenta uma passagem curiosa "Fui ao apartamento de um cliente para ver o lugar onde ficaria o móvel que ele tinha encomendado. Estava indo pela entrada principal, mas, quando falei que era marceneiro, o porteiro me disse para subir pela de serviço". Paralelamente a isso, você expõe suas peças em galerias no exterior. Acreditando que o artista deva ser um artesão, dominando o processo artesanal na confecção de sua arte, e o mesmo ocorre com a movelaria, onde o designer também deve dominar a arte da marcenaria. A que vc atribui esta diferenciação que ainda encontramos no Brasil entre a arte e movelaria?

JK: O trabalho do artesão em geral é muito desvalorizado no Brasil, diferentemente de outros países, onde a escassez de profissionais hábeis manualmente os transformou em pessoas especialmente admiradas e respeitadas. Aqui ainda vale o título, ou seja, se eu digo que sou designer, ok, sou valorizada, e até existe um certo “charme” criado em cima da história de uma pessoa de nível universitário decidir trabalhar com as mãos, na marcenaria, principalmente sendo mulher. Mas o marceneiro não tem o mesmo status, pois a imagem por trás é da pessoa de formação mais básica, que por não ter tanto estudo acabou optando por este ofício, assim como poderia ter se tornado pedreiro, encanador, eletricista etc.

Todo ofício para mim é tão importante e belo quanto a formação acadêmica, não consigo aceitar essa forma de pensar, mas sinto que essa é uma discussão muito extensa que nos remete à questão do Brasil como país colonizado, do hábito de “ser servido” que temos enraizado em nossa sociedade, e tudo isso acaba nos tornando segregadores e desconhecedores de muitas atividades nobres das quais poderíamos estar participando diretamente.

big mesa_baumc

Contato: www.juliakrantz.com.br

Boa nova: entrevista com Adriana Yazbek

Resolvi inaugurar uma nova seção aqui na Casa. Minha idéia é fazer pequenas entrevistas com gente interessante ligada à design, arte, casa ou decoração.

A estréia será em grande estilo, com Adriana Yazbek.

CV: Encontrei sua casa publicada na revista Bons Fluídos e vi que além de trabalhar com a mistura de cores intensas nas suas peças vc tb as usa em casa. Como percebo que parte das pessoas tem receio em usar e abusar das cores, minha pergunta é: Como trabalhar com diversas tonalidades juntas sem causar estranheza ao olhar? E qual a influência que elas exercem no seu dia-a-dia?

Cozinha colorida. Foto retirada do site da Bons Fluídos cópia

AY: Vou começar pelo fim: a influência mais evidente no meu dia-a-dia é a alegria. As cores deixam tudo mais leve e feliz, mesmo nos dias cinzentos - aliás, podem ser um ótimo antídoto contra eles... Porém, para utilizar tantas cores é necessário que os ambientes sejam luminosos, caso contrário elas podem surtir o efeito inverso e acabar pesando.
Sou arquiteta, estudei psicologia por três anos, fiz o curso de cenografia com o Serroni, no CPT, estudei anos com o Dalton de Luca, depois com o Silvio Dworecki, mas sempre fugi das teorias de cor. Sempre preferi deixar que meus olhos conduzissem as escolhas. Iniciei minha carreira como pintora de tecidos quando ainda era estudante. E acho que continuo criando como se estivesse pintando, imaginando os objetos e superfícies como partes de uma composição.
Quando crio um produto ou faço um projeto arquitetônico as cores são fundamentais, elas são parte da própria concepção do projeto. Existem várias maneiras de abordar as cores, como por exemplo, através da criação de contrastes, ou da utilização de tons parecidos. Porém, sinto que ainda não respondi sua pergunta... De fato, não há fórmulas para que elas não causem estranheza. Não é qualquer contraste que parece harmonioso! Muitos podem ser até agressivos e causar a sensação de que algo está "fora d o lugar". Neste sentido, acho que meus anos de pintora me ajudaram muito na experimentação de cores, etc. É óbvio que quando se trata de um ambiente, a escala é completamente diferente e entram outras variáveis que não se apresentam na pintura - a mais importante delas é a iluminação natural.

Paredes vivas. Foto retirada do site da Bons Fluídos cópia Ateliê. Foto retirada do site da Bons Fluídos cópia

Sala principal. Foto retirada do site da Bons Fluídos cópia Prateleira. Foto retirada do site da Bons Fluídos cópia

CV: Hoje, todos conhecem o trabalho da Oficina Boracea, mas gostaria de saber um pouco do começo, como foi reconhecer o potencial daqueles artesãos, o proceso de desenvolvimento dos produtos e qual a maior contribuição que o design leva a essas comunidades?

AY: O Boracea é um albergue de moradores de rua da cidade de São Paulo. Fui convidada em 2004, pela então Secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, Aldaíza Sposati, para promover melhorias dentro do espaço do albergue através de uma intervenção arquitetônica/cenográfica. O objetivo era justamente trazer um pouco de alegria e aconchego ao espaço. Como o Boracea era um albergue que, na sua concepção original, estava destinado a abrigar catadores, tendo em suas instalações estacionamento de carroças, canis e uma central de reciclagem - a abordagem de toda esta intervenção se deu através do reaproveitamento de materiais.
Em 2005, com a mudança de governo o foco passou a ser geração de renda, o que já era um dos objetivos iniciais do projeto, porém , estava destinado à uma etapa posterior. Neste momento fiquei trabalhando sozinha, minha equipe de 12 pessoas foi mandada embora, e eu tive que continuar o trabalho sem muito suporte. Como ficamos sem recursos (humanos e financeiros) o trabalho precisou se ajustar à realidade. Havia alguns moradores e usuários do albergue que participavam da oficina e eu não queria desmotivá-los. Havia um ateliê em que este trabalho era realizado e ao lado um grande galpão em que várias pessoas ficavam desenvolvendo outras atividades artesanais, sociais, etc.

O trabalho com o jornal foi sendo introduzido gradualmente como uma troca de saberes. Convidava as pessoas que sabiam a técnica a trabalhar no ateliê e compartilhar seus conhecimentos. Em contrapartida, incentivava experimentações com o material - tais como utilização de cores, confecção de canudos dos mais variados tamanhos e espessuras, experimentação de formas, etc. O trabalho com o jornal é uma técnica de domínio público bem conhecida. Porém é sempre feito da mesma forma. Cestos, que tentam imitar vime e que são posteriormente envernizados, camuflando a natureza da matéria prima. Desta forma, toda a investigação com o material se deu no sentido oposto ao uso tradicional da técnica.
Os participantes da oficina eram muito flutuantes e pouco assíduos, uma vez que para esta população, a questão da sobrevivência se impõe de maneira radical. Após dez meses de experimentações em que o potencial criativo do material ficou evidente, pedi o apoio do novo secretário Floriano Pesaro, através de uma bolsa que pudesse remunerar os participantes. A partir deste momento o trabalho tomou um novo impulso. No final deste mesmo ano realizamos um bazar de Natal que foi um sucesso. A Elaine Landulfo, que é minha amiga e organizadora da Craft Design foi ao bazar e viu o grande potencial do projeto. Assim, Elaine e Daniela (Daniela Cechini) nos convidaram a participar da Craft Design de março de 2006. A partir dai o projeto ficou sólido. Trabalhei no grupo até o fim de 2007 quando eles se emanciparam transformando-se em ONG.
O Boracea não é exatamente uma comunidade e me parece um caso bem específico. Explico: numa comunidade muitas vezes já existe um grupo, um vínculo, um objetivo comum, e, geralmente, as pessoas não estão em condições tão marginais de vida. Muitas vezes também, já há um trabalho artesanal que é desenvolvido pelo grupo, mas que não cumpre as expectativas no sentido de gerar renda. Neste sentido, o trabalho do designer, só tem a acrescentar - desde que as particularidades desta comunidade sejam devidamente respeitadas. O designer tem que ter humildade, saber ouvir e ver. Interagir de verdade com as pessoas, de igual par igual, sem pedestal. Porém este trabalho não pode acontecer de maneira isolada. É preciso uma equipe multidisciplinar e uma atuação a longo prazo, uma vez que em projetos de geração de renda não se trata apenas de criar produtos bacanas para serem comercializados. É preciso desenvolver aspectos que garantam a solidez do trabalho - desenvolver competências administrativas e mercadológicas, por exemplo. Mas talvez o principal seja o fortalecimento de características humanas fundamentais, tais como a auto-estima e a solidariedade, que são duas bases muito importantes para o êxito do trabalho, pois a primeira tem a ver com reconhecer o próprio valor e poder se afirmar e a segunda com a capacidade de compartilhar os frutos gerados. É muito comum as pessoas ficarem egoístas e egocentricas quando aparecem o sucesso e o dinheiro... Muitos trabalhos bacanas se desestabilizam justamente quando começam a "funcionar".
No caso do Boarcea esta comunidade não existia, o grupo foi se formando ao longo do trabalho. Mas podemos considerar como tal, dentro do contexto da pergunta, com a diferença de que talvez as questões psicológicas e emocionais neste trabalho tenham sido mais intensas do que numa comunidade de pessoas mais inseridas socialmente.

Albergue antes:

Albergue depois:

CV: Seu trabalho chama a atenção por ser único e desenvolvido com conceitos ecologicamente corretos e sustentáveis. Você sente uma preocupação real do mercado em relação a essa forma de trabalho ou é ainda um conceito que não está enraizado na nossa cultura?

AY: Acho que o mercado está cada vez mais consciente, mas não vejo isto completamente incorporado na nossa cultura não!
Muitas vezes o próprio ato de ser mais criterioso com aquilo que se consome, pode justificar por si só o consumo, legitimando o mesmo. Desta forma, não mudamos o habito de consumir vorazmente, apenas passamos a consumir aquilo que está "absolvido". O que mais precisa ser mudado é a atitude, o modo de se posicionar no mundo! E a questão mais radical que se impõe é justamente consumir menos.... Coroa

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